segunda-feira, 25 de outubro de 2021

XXX

bárbaro amor que só conheci a trava

que junto aos olhos faz dispor o avesso

se aquela torre que nos encerrava

era o princípio de onde certo desço


deste frêmito que julguei que amava

desfeito o encanto vejo agora o preço

é rocha inepta, nem edificava

só me fora uma pedra de tropeço


meus clamores são vestígios que escombras

e confundes os anseios da fortuna

dando fé aos embaraços que aferram


hoje arranco em mim a ti e à tua sombra

renegando esperanças importunas

que ao brilho do meu ser em nuvens cerram


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25/10/21

sábado, 16 de outubro de 2021

XXIX

somente colhi das safras passadas

invariável estio, que dana e tolhe,

não vou debulhar o que a mão não colhe

se esta privança é pena sagrada


por mais que confie na seara lavrada

e ao humílimo broto em lágrimas molhe

propagam-se agruras ao fértil: olhe!

esta sazão não me legará nada


quais dissabores, tais as recompensas

nada aos olhares da libra se evade

inda que não se divisem as raízes


resta indagar se obstinar compensa

ou se conformar ao extenso das grades

se resignar às prístinas matrizes


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16/10/21

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

XXVIII

tenho p'ra ti um segredo, uma forria

se erras mofina em afã decadente

volve no termo em que a paz te corria

e o mal que te enferma não era corrente


não é meu afeto, que míngua e varia,

nem vão esperar, inda que renitente,

menciono o ungüento da leve alegria

que infátuo permeia passando-te rente


se em ti subjaz não tome-o por tácito

pois muitos buscam, mas frustram o achar

ele se esvai da pretensa porfia


te prostres humilde ante o beneplácito

que oculta-se sob dos olhos fechar

em verdade o digo: é o lar de sofia


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13/10/2021